

Essa é a Kelly. Ela tem 16 anos, está no terceiro ano do ensino médio, nasceu e cresceu na comunidade de Pontal do Leste, na Ilha do Cardoso, litoral sul de São Paulo.

Ela sonha em ir para a universidade para fazer enfermagem ou artes cênicas.
Todos os dias, para poder ir para a escola, Kelly acorda as 4h30 da manhã, se arruma e as 5 pega um barco que depois de 2 horas a deixa na comunidade de Ariri, que fica no continente e conta com energia elétrica convencional. Lá na escola, amparada por um professor, Kelly assiste diversas vídeo aulas até 12h15 e depois pega o barco novamente para chegar em casa lá pelas 2h30 da tarde.
Barco que leva os alunos todos os dias para a escola.
A tarde, Kelly faz o que a grande maioria dos adolescentes faz: assiste sessão da tarde, vale a pena ver de novo, dorme, acorda, brinca com o sobrinho Otávio, estuda, ajuda a mãe com as tarefas de casa e termina o dia assistindo a mais 2 ou 3 novelas.
Otávio, sobrinho de Kelly e o futuro da comunidade de Pontal.
Mãe e sobrinho de Kelly ao lado do passatempo favorito da família, a tv.
A única diferença entre a Kelly e vários outros adolescentes do Brasil é que se não houver sol, não há como assistir televisão.
Não existe energia elétrica convencional na Ilha do Cardoso. Em alguns pontos as casas são abastecidas através de geradores e em alguns outros, como é o caso de Pontal do Leste, através de placas solares que foram instaladas vários anos atrás e desde então estão completamente sem manutenção. Em Pontal do Leste as placas que ainda funcionam dão conta apenas de suprir a energia necessária para acender algumas lâmpadas e deixar uma televisão de 14 polegadas ligada por um certo período de tempo.
A Kelly dando depoimentos para a nossa equipe.

Juarez, pai da Kelly é pescador, como a grande maioria dos homens de Pontal, mas teve que parar de sair para pescar porque está com um problema de saúde que o impede de trabalhar no mar.
Juarez e sua família.
Juarez nos contou que os pescadores de Pontal estão passando por um momento muito delicado. Grandes empresas usam barcos enormes para fazer a pesca em alto mar. Eles pegam tanto peixe que não sobra quase nada para os pescadores menores. Para se ter uma idéia, esses barcos grandes chegam a pegar em um único dia a mesma quantidade de peixe que toda a comunidade de Pontal pegava em uma safra inteira.
Antigamente os pescadores pegavam tanto peixe que todos os dias enchiam um barco e já levavam a mercadoria para Cananéia para abastecer peixarias da cidade e também para ser enviada para outras cidades. Porém, a quantidade de peixes que eles conseguem pescar hoje em dia é tão pequena que não compensa gastar tanto com o transporte até Cananéia, que é extremamente caro pelo fato de Pontal ficar distante de lá. Os moradores são unânimes em dizer que tudo iss poderia ser contornado se eles pudessem instalar um freezer na comunidade e conservar os peixes nele até que tivessem uma quantidade razoável para levar até Cananéia.
Entrada de Pontal do Leste.
As dificuldades que as comunidades isoladas tem pelo simples fato de não terem energia elétrica suficiente para suprir todas as necessidades deles são muito evidentes e diversas.
Essas fotos e várias outras que ainda vou colocar por aqui fazem parte de um projeto que estamos desenvolvendo para documentar as comunidades de Pontal do Leste e Cambriú, ambas na Ilha do Cardoso. Em breve darei mais detalhes do projeto. E enquanto isso não acontece, vejam nesse link mais informações interessantes sob o ponto de vista de outro membro da equipe: http://derepente.com.br/2009/05/26/projeto-cananeia-energia-sustentavel/

